Minha gula por sua vez, assumia de uma forma inédita . Não tinha vontade de torta , do sorvete de framboesa , mas desejava ser a torta e o sorvete que ela aproximava da boca. Com a minha , eu fazia caretas involuntárias.
Não era por vicio que eu a cobiçava , mas por gulodice. Suas bochechas me teriam satisfeito na falta de seus lábios.
Eu falava , pronunciando cada sílaba para que ela entendesse bem. Excitado com aquela refeiçãozinha divertida , eu habitualmente silencioso , me irritava por não poder falar depressa. Sentia necessidade de conversas , de confidências infantis. Aproximei meu ouvido da sua boca. Bebia as suas pequenas palavras.
Eu a forçava a tomar um licor. Depois , fiquei com pena dela como de um pássaro tonto.
Esperava que sua tontura serviria a meus planos , pois não me importava que ela me desse seus lábios, de bom grado ou não. Pensava na inconveniência na casa de Marta , mas , eu me repetia , no fim de contas não tirava nada do nosso amor. Eu desejava Svea como uma fruta , e disto uma amante não pode ter ciúmes.
Eu segurava sua mão nas minhas , que me pareceram pesadas como patas . Teria querido despi-la , acalentá-la. Ela se estendeu no divã. Levantei-me , inclinei-me sobre o lugar onde começavam seus cabelos , uma penugem. Não conclui , do seu silêncio , que meus beijos lhe dessem prazer ; mas , incapaz de se indignar , ela não encontrava um modo polido , em francês, para me afastar. Eu mordiscava suas bochechas , como se elas pudessem secretar o suco adocicado dos pêssegos.
Finalmente , beijei sua boca. Ela suportava as minhas caricias , vitima paciente , fechando a boca e os olhos. Seu único gesto de recusa consistia em mexer debilmente a cabeça da direita pra a esquerda , e da esquerda para a direita. Eu não me iludia , mas a minha boca encontrava nisso a impressão de uma resposta. Ficava junto dela como nunca ficara junto de Marta . Esta resistência , que não era de verdade , envaidecia minha audácia e minha preguiça. Era bastante ingênuo para crer que as coisas prosseguiriam assim e que eu me beneficiaria de uma violação fácil.
Eu nunca despira mulheres ; costumava ser despido por elas. Por isso ,mostrei-me desajeitado , começando por tira-lhe os sapatos e as meias , Beijei seus pés e suas pernas. Mas quando quis desatar seu corpete , Svea se debateu com um diabrete que não quer ir pra cama e que despimos a força. Ela me encheu de pontapés. Agarrei no ar os seus pés prendi-os e beijei. Afinal , a saciedade chegou , assim como a gula se acaba depois de um excesso de creme e doces.
Mas eu não tinha remorsos. É não é pensando em Marta que me desinteressei da pequena sueca , mas porque tinha tirado dela todo o suco.
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- Raymond Radiguet / pg. 89,90,91
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